(Wilhelm Reich + Capoeira Angola) = (Somaiê + F.A.C.A.)

década 30 do séc. XX                             década 10 do séc. XXI

            Meu primeiro contato com a capoeira foi num contexto pessoal de desejar aprender uma LUTA com elementos de DANÇA. Já tinha praticado Judô e Karatê, gostava de luta e me sentia travado na dança. Ao descobrir a capoeira gostei da sua estética, e juntei meu desejo de voltar a praticar alguma luta com o de me dasafiar a entrar na dança.

            Sempre tive um sentimento libertário e me incomodava tanto as injustiças sociais do capitalismo como a mediocridade da política institucional. Por falta de opção, e desconhecendo o anarquismo, entre a direita conservadora e a esquerda hipócrita, votava em Brizola pelo discurso em pró da EDUCAÇÃO.

            Quando conheci a Somaterapia pelas mãos de seu criador, o escritor Roberto Freire, tive contato com áreas aparentemente distantes, mas que se fundiam e harmonizavam na SOMA: Da capoeira, Freire defendia a Angola. Na política, se colocava como Anarquista. Na ciência, me apresentou Wilhelm Reich.

Hoje, estou distante de Freire e seus supervisionados, pois optaram pela inserção acadêmica na psicologia, sem falar de que optei em experimentar mudanças/atualização nas pesquisas de Freire. Passei por rompimentos em minha formação profissional: primeiro ao abandonar o último ano do curso de Arquitetura e Urbanismo para aprofundar minha formação em Somaterapia e, a pouco tempo, abandonar meus companheiros de Soma para criar meu caminho, que hoje chamo de Somaiê.

Sou pai de uma menina de dois anos e penso como possibilitar uma formação libertária, frente a nossa realidade atual em que os eleitores americanos optaram em manter como ‘presidente mundial’ o conservador Bush filho. No Brasil, vivemos a situação de após anos do sonho da esquerda chegar ao poder, Lula está se mostrando mais neoliberal que seus antecessores. Curioso que no Brasil é obrigatório aos pais colocarem seus filhos nas escolas, e nos EUA existe o home-schooling, uma tradição garantida por lei que permite os pais educarem fora do sistema oficial.

QUAIS SÃOS OS CAMINHOS PARA MEUS FILHOS: a Cecília e a Somaiê??? Faço essa pergunta, e pra respondê-las sonho com duas novas propostas: Te&So e C&E Livres.

 

Wilhelm Reich x George W. Bush

 

Daqui a três anos saberemos se existe algum segredo ou se não passa de mais uma curiosidade da história de vida desta polêmica figura do século passado, ainda marginal a psicologia oficial. Pois W. Reich morreu numa campanha difamatória durante a ditadura macarthista americana em 1957, e imaginou que a sociedade estaria preparado para suas pesquisas muito tempo depois (deixou no testamento que parte de sua obra só poderia ser divulgada 50 anos após sua morte).  Talvez, se Reich vislumbrasse a ‘era Bush’ teria colocado uns 100 anos para a abertura de seus escritos.

A recente eleição americana para a escolha presidencial confirma as teses reichianas, e é muito fácil fazer uma transposição do fascismo/nazismo de Hitler para a atual globalização de Bush. Na palavras de Reich “Foi o povo que fez Hitler e não Hitler que submeteu o povo”, e hoje, Bush teve uma votação histórica aos ser reeleito. Se Hitler teve colegas a altura como Stalin, Mussolini e Franco. Bush está com Blair, Berlusconi, sem falar da prostituta O.N.U.. Mudam alguns aspectos e nomes, mas as estruturas são as mesmas. Dos Judeus aos Muçulmanos, a XENOFOBIA é a mesma.

Quem reelegeu Bush foi o discurso conservador, seja no medo do casamento homosexual, ou ainda o medo de ataques terroristas, como o acontecido no WTC –  planejado por um terrorista criado e armado pela própria política externa americana (também terrorista, porém aceita e reeleita). Sem falar de uma guerra contra um país/ditador que seu próprio pai na mesma presidência tinha feito a mesma guerra alguns anos antes. Enfim, vivemos o que Reich chamou de PESTE EMOCIONAL e IRRACIONALIDADE.

“O traço distintivo da peste emocional reside... no fato de que a doença se manifesta numa atitude humana que se reflete, em razão de sua estrutura caracterial biopática, nas relações interpessoais, nas relações sociais, e que adota uma forma organizada em certas instituições” Wilhelm Reich.

Se percebe uma clara ligação entre peste emocional e tradição. De Roger Dadoun em seu ótimo livro “Cem flores para Wilhelm Reich”: “O empesteado aparece, de ponta a ponta, como um ser contraditório em todos os níveis, desde a vivência emocional até a teorização político-social; e a peste emocional pode ser considerada, deste ponto de vista, como uma espécie de neurose coletiva da contradição. Esta contradição se manifesta com uma particular virulência e uma nocividade espetacular no domínio sexual: sobre a base inabalável da frustação, o empesteado desenvolve uma atitude dupla: por um lado, a adesão, real ou fingida, a uma moral anti-sexual rígida, repressiva, sádica (bater, castrar, cortar os cabelos, ‘cortar os bagos’, desnudar publicamente, denunciar à justiça, etc.)...; por outro lado, uma espécie de lascívia sexual, de pornografia dissimulada, vulgar ou elegante, uma confusa transgressão lateral dos tabus mais ostensivos.” Quem se lembra das fotos sádicas e de humilhação sexual sobre os prisioneiros de guerra iraquianos?

A Irracionalidade do contexto da política de guerra americana e mundial, segue um círculo vicioso como o extermínio que os judeus sofreram como vítimas, agora produzem como carrascos. Há sempre uma boa fórmula de marketing para tentar justificar o injustificavel. A Peste Emocional que existe na sociedade humana é uma violência que se perpetua e se aperfeiçoa, ora por um controle das reservas de petróleo, ora por um mercado de cultura colonizadora, ora pela renovação da indústria bélica, sempre num contexto de diversificação espetacular de consensos fabricados. Numa ponta as grandes multinacionais e interesses financeiros que mantém a globalização e esta ordem mundial, na outra ponta uma massa de manobra com suas preocupações como religiões, partidos políticos, moral sexual conservadora, TFP’s, KKK’s e CCC’s, etc & etc...

Mudaram as macro estruturas sociais, mas o gerador da submissão e autoritarismo se mantém intocável: a família nuclear burguesa, sua educação que prepara para a morte no lugar de incentivar a vida.

 

            Capoeira Angola – das senzalas e guetos até a ONU

 

            Em torno de sete décadas atrás, enquanto Wilhelm Reich era expulso do Partido Comunista Alemão e da Associação Psicanalítica Internacional, o Brasil na ditadura de Getúlio Vargas (Estado Novo) buscava descriminalizar a capoeira, e outras atividades, para obter a simpatia de minorias excluídas.

            A capoeira angola nasceu como uma manifestação de rebeldia negra contra a injustiça da escravidão. Basicamente uma luta que se camuflou em dança, seja por lendas de sua criação enquanto manifestação de quilombos e senzalas, ou como criação coletiva da cultura africana explorada no Brasil colonial. O Negro escravo nem era considerado como seu humano, após tantas lutas e rebeliões conseguiu certos direitos sociais, mas continuou marginal na sociedade. A prática da capoeira constava no código penal e aos poucos foi liberada e popularizada. Nos últimos anos obteve um crescimento globalizado: só no Brasil mais de 6 milhões de praticantes por dados oficiais, e já se espalha por centenas de países.

            De crime nacional a modismo internacional, a capoeira sofre hoje novas tentativas de regulamentação. Seja por conselhos de educação física tentando monopolizar o ensino, como seu uso político pela esquerda no poder, a capoeira possui faces contraditórias e antagônicas. A capoeira angola se mantém na marginalidade dos tipos de capoeiras existentes.

            Sob a palavra capoeira desenvolve-se uma enorme gama de possibilidades de organizações políticas, inserções sociais e pedagógicas, vertentes esportivas, mercadológicas e acadêmicas. Nós angoleiros não aceitamos as competições desportivas, pois estas seguem a lógica do vencedor versus perdedor, lógica da competição e da destruição do homem. Na capoeira angola não há vencedores e perdedores, pois todos ganham com as trocas e relações que acontecem na roda. Assim é a diversidade da capoeira, jovens com diplomas e estratégias de marketing espalham uma capoeira pelo mundo e capitalizam seus ganhos, enquanto alguns velhos capoeiras, com muita sabedoria desta arte popular porém muitas vezes semi-analfabetos e quase sempre na pobreza e miséria, se mantém fiéis a outro tipo de capoeira. Novamente, pontas opostas que possuem um degradê de posições diferenciadas entre elas.

            Neste ano, para marcar um ano da morte do embaixador brasileiro no Iraque, o Ministro da Cultura Gilberto Gil faz uma roda de capoeira na ONU e lança a idéia de um Programa Nacional e Mundial da Capoeira. Como nós angoleiros ficaremos no Programa, ainda é um mistério, ainda que estivemos bem representados nesta roda (http://somaie.vila.bol.com.br/capoeiraONU.html)

 

            Somaiê e FACA, de filhos a pais...

 

            Considero Roberto Freire um gênio brasileiro, como Reich foi um gênio mundial. Mas enquanto Reich morreu defendendo suas idéias, penso que Freire se acomodou pelas dificuldades da velhice. Mesmo aposentado há alguns anos, Freire supervisiona o caminho de somaterapeutas de Soma. Optei em mudar um pouco o nome da minha vertente, pra evitar confusões. A Somaiê nasceu da Soma, uma evolução que está se atualizando nesta virada de milênio, com suas novas abordagens e possibilidades. Se a base teórica estava na gestalt, antipsiquiatria, além de Reich e a bioenergética, podemos hoje linkar com a biologia do conhecimento, antiessencialismo e as teorias dos memes. Se antes acreditávamos no anarquismo, hoje sabemos que este só é possível enquanto práticas de pedagogia libertária no cotidiano.

            Mas a primeira mudança foi na abordagem externa, tanto na política da capoeira como na radicalidade por vivências em pedagogia libertária. A Soma nasceu quando Freire descobriu Reich e voltou a prática terapêutica. Freire se manteve reichiano ao se explicitar anarquista, pesquisou a pedagogia libertária, mas acabou recuando a uma posição acadêmica autoritária. Talvez como Freud, desejando uma maior aceitação da sua obra.

            Para a psicologia a Soma se assume anarquista, mas ao entrar na capoeira se intimidou com a cobrança da cultura popular e suas diversas vertentes. A Somaiê só viu uma solução, a criação de uma Federação Anarquista (FACA) que se questiona a cada encontro vivendo o anarquismo aqui e agora, com produções e utopias. Crise após crise, aprendemos um caminho explicitamente anarquista no ambiente diverso da arte popular da capoeira.

            Temos produzido textos, eventos, encontros, CD’s de músicas; mas principalmente levando ao universo da capoeiragem a existência de opções libertárias explícitas de se viver.

            O movimento anarquista vive um recolhimento após o boom de Seattle. Com as lutas antiglobalização há cinco anos, o movimento anarquista mundial teve uma forte revigorada. E depois dos ataques as torres gêmeas, um encolhimento. No plano nacional, com a esquerda Lula chegando ao poder, com apoio inclusive de revolucionários anarquistas nessa votação, parece que houve um retraimento maior ainda. Aqui o movimento anarquista não tem maturidade para se federar em larga escala. Em compensação nascem federações articuladas em áreas específicas. Como a Somaiê desacredita numa atuação ‘trabalhista’ ou classista,  e preferimos as teses da Abolição do Trabalho (Grupo Krisis), que atuar num anarco-sindicalismo, optamos ao criar a FACA, em concentrar nosso libertarismo pedagógico na cultura popular.

            Em 1997, no Evento Comemorativo ao Centenário de Wilhelm Reich, apresentei a capoeira à psicologia reichiana. Agora em 2004, ao apresentar a capoeira angola na XVII Jornada Reich do Sedes, a Somaiê junto da FACA já possui dois Cd’s produzidos, projetos de acervo e pesquisa encaminhados, se expondo e dialogando com capoeiras de variados estilos e ancestralidades. A Somaiê também mantém projetos permanentes de pedagogia libertária como o Jornal Tesão e o Prêmio Walter Firmo de Fotografia. Mas essa estrutura se tornou cômoda frente uma leitura radical dos processos sociais. Reich nunca se acomodou a uma técnica terapêutica individual, mostrou como a estrutura neurótica individual se relaciona com a estrutura social e política. Lembro que a capoeira nasceu como arma de libertação de uma raça, não como esporte competitivo individual.

            Desde que me separei de Freire, primeiro chamando de Soma-Iê e depois ampliando de técnica terapêutica a produção cultural havia um hiato entre as propostas teóricas e os resultados cotidianos, tanto dos terapeutas como dos que passaram pela técnica; não no aspecto individual, mas no nosso sonho revolucionário de abalar as estruturas do sistema. Além da autocrítica que venho me propondo como somaterapeuta ao me afastar do criador da técnica, percebi que precisava fazer o óbvio, ampliar a crítica da minha liberdade além da técnica, além de ser SOMÁTICO na ancestralidade, também com meus descendentes...

 

            Te&So e C&E Livres

 

            Por mais de três décadas a Soma criticou os cursos de psicologia, e quando um somaterapeuta formado resolveu fazer psicologia mostrou um retrocesso que a Somaiê denunciou e optou em continuar avesso ao academicismo. No lugar de fazer um curso acadêmico de psicologia, resolvi criar um curso permanente não acadêmico de Somaiê.

            Te&So é TEORIA & SOMAIÊ. Formamos um grupo de estudo, pesquisa e produção que irá ampliar as bases teóricas da técnica da somaterapia. Servirá como núcleo de formação de novos produtores de Somaiê, substituindo o modelo anterior em que a formação se dava exclusivamente com somaterapeutas. E servirá de ambiente formativo, como um curso livre, para pessoas que busquem ampliar seus conhecimentos em relação a visão de mundo da Somaiê e desejem aplicar em suas áreas de trabalho, sem terem necessidade de trabalharem com a técnica da Somaiê. Como critico as faculdades de psicologia, que além de conservadoras no conteúdo, vivem um paradigma ultrapassado e autoritário no aspecto formal. Resolvi criar uma faculdade informal de somaiê. É a teoria de uma prática pedagógica que visa ultrapassar os limites da técnica terapêutica e pedagógica.

            Te&So é pedagogia libertária aplicada a uma atualização da ‘economia sexual’ cunhada por W. Reich. Uma forma de ver as dificuldades humanas de relacionamento dentro de aspectos sociais e políticos. A Somaiê herda da Soma a abordagem reichiana, seja no aspecto político como no energético. Porém a Somaiê se mantendo fiel a como Reich lutou em sua vida pessoal por viver uma integração entre a teoria e prática, busca implantar mecanismo que façam a técnica terapêutica ter uma maior amplitude social. Mas para isso se torna necessário a criação de outros mecanismos também práticos.

            Depois de mais de 10 anos praticando Soma, percebi que os participantes da técnica descobrem seus potenciais e criam caminhos variados, seja durante ou seja após o período do grupo. Participei e acompanhei experiências variadas nas possibilidades da pedagogia libertária aliadas ao desbloqueio da criatividade. Muitas pessoas descobrem novas formas de viver sua afetividade e acasalamentos, pesquisando mudanças com quem moram e namoram. Na área produtiva, mudam e criam profissões, buscando sempre o componente do prazer nas atividades. Enfim, uma erotização da vida cotidiana.

            Tanto Reich como a antipsiquiatria nos mostraram como é na família que começam as mazelas do autoritarismo, que pra mudar a sociedade temos de começar libertariamente, de baixo para cima. Começa na subjetividade, ao se questionar da educação recebida, e experimentando novas formas de se relacionar com o meio. Assim, o subjetivo se liga ao social, seja nas relações afetivas (amor) e nas relações produtivas (trabalho). Assim como somaterapeuta, vivi e percebi no meu corpo e dos participantes de meus grupos como desconstruir essa fórmula do autoritarismo. Mas, inexoravelmente as pessoas tem filhos (a grande maioria), e aí que existe um hiato. Tive a minha Cecília e acompanhei a vinda de inúmeros filhos de amigos e conhecidos. E por mais que tenhamos nossas experiências libertárias com mudanças para uma nova vida pós-Soma, e possamos passar isso aos nossos filhos dentro de nossas casas e comunidades, chega uma hora de ampliar o social de nossos filhos e inevitavelmente dar uma educação formal.

            Aí se quebra a corrente libertária  iniciada na terapia, e temos de deixar nossos filhos a passar por um processo destrutivo da vida, que liga o micro (família) com o macro (sociedade): a educação formal, as escolas.

            Toda energia gasta em pesquisar um novo núcleo familiar é desperdiçado ao não conseguirmos ligar a vida livre dentro de casa com a possibilidade de uma vida livre fora de casa. Se evitamos na família, é na escola que começa a educação que irá destruir a espontaneidade vital e biológica, para domesticar para essa sociedade autoritária, seja explícita-Bush ou implícita-Lula, pois a mediocridade e desigualdade social estão nas creches e escolas ao nosso redor. Seja para destruir o amor biológico e ensinar (adestrar) a um amor de palavras, seja para destruir nosso potencial criativo-produtivo e direcionar para ofertas de trabalho de um sistema doente.

            Antes das descobertas Reichianas mostrarem os malefícios da família, Giovanni Rossi no Brasil criou a colônia Cecília (fim do século XIX no Paraná) e provou a viabilidade de uma comunidade anarquista. Rossi disse que “...a solidariedade permanece teoria enquanto o homem vê de um lado a mulher e os filhos, e do outro lado, a humanidade”. Bakunin há muito colocava a importância de se aliar a liberdade individual a solidariedade. Assim a Somaiê busca criar e incentivar o nascimento de CRECHES & ESCOLAS LIVRES (C&E Livres) para poder finalmente aliar uma poderosa arma de libertação – o desbloqueio subjetivo através da Soma/Somaiê; com a possibilidade mais revolucionária e perigosa para o sistema atual – as creches e escolas libertárias.

            Reich como grande visionário que foi, percebeu em seu final de vida como estavam nas crianças o ponto de viragem da sociedade. Deixou em seu testamento, além dos segredos para 2007, que 80% de todos os ganhos e benefícios sobre os direitos provenientes de suas descobertas fossem “consagrados à proteção da infância em todas as partes do mundo”...”geridos e administrado sob o nome de Fundação Wilhelm Reich para a Infância”.

 

Não existe originalidade única, e sim relações em movimento...

 

            Gosto das propostas por uma unidade no movimento anarquista, mas para isso talvez seja necessário aumentar nossas perspectivas revolucionárias. Pois como o movimento libertário está hoje dividido, é porque as vezes aparentemente temos os mesmos desejos por usar o mesmo nome (anarquismo) mas estamos em caminhos opostos. O mesmo acontece na capoeira, psicologia e educação. Talvez possamos tentar não uma unidade de nomes, como unidade da capoeira, ou unidade da psicologia, mas uma unidade entre partes revolucionárias de áreas diferentes, mas que caminham para os mesmos objetivos.        

Quem sabe a utopia anarquista possa se ampliar para mais pessoas, e a injustiça humana e exploração do homem pelo homem possa se transformar em exceção e não em regra, camuflada por políticas democráticas, apoiadas por religiosidades assexuadas. Independente de nomes, sabemos que enquanto humanidade, estamos num caminho suicida. Reich defendia AMOR,TRABALHO e CONHECIMENTO. Se não ultrapassarmos as palavras e relativarmos os conceitos de acordo com o ponto de vista de cada posição, continuaremos isolados e fracos. A medida que experimentamos, novos conhecimentos, experiências ou posições, seja profissionalmente ou seja afetivamente, poderemos ampliar nossos enquadramentos da realidade e socializar nossas energias para mudanças mais fortes.

Acredito nesta trilogia reichiana, mas como aprendi com H. Maturana, também somos seres autopoéticos e que não sabemos como distinguir a percepção da ilusão, assim precisamos aprofundar os conceitos e intenções por detrás das palavras.

Sou pelo AMOR, como uma emoção que constitui as ações de aceitar o outro como um legítimo outro na convivência. Amar é abrir um espaço de interações recorrentes com o outro, no qual sua presença é legítima, sem exigências. Seja entre homem e mulher, ou pais e filhos o amor não pode ter relações hierárquicas, pois estas se fundam na negação mútua implícita, na exigência de obediência e de concessão de poder que trazem consigo.

Sou pelo TRABALHO, mas a democracia do trabalho de Reich que propõe conceitos anarquistas, não um trabalho a todo custo numa sociedade que mais valoriza o emprego que quarquer coisa, afinal o PT é o partido dos trabalhadores e a grande maioria dos trabalhos existentes são para a manutenção de uma máquina falida e autodestrutiva de bens de consumo, em sua grande maioria inúteis. Maturana e Reich concordam que trabalho saudável não possui patrões.

Sou pelo CONHECIMENTO, mas um conhecimento que segue uma racionalidade nova, ABERTA e vital, onde Reich critica o mecanicismo científico antecipando a visão sistêmica da ciência.

Curioso como um ponto forte das calúnias e difamações contra Wilhelm Reich e sua obra aconteceu 10 anos antes de sua morte, num artigo entitulado “O novo culto do sexo e da anarquia”. Roberto Freire fez a ligação de Reich com o anarquismo e intuiu como a capoeira angola poderia participar desse processo. Talvez não esteja fazendo nada de novo, já que o próprio A.S. Neill teve a influência do amigo Reich na escola Summerhill. Tenho a pretensão de que a FACA, Te&So e C&E Livres possam dar uma consistência de romper esse isolamento entre psicologia (soma), política (anarquismo) e educação (pedagogia libertária) com a arte e cultura popular (capoeira). Tenho a pretensão de a Somaiê, enquanto produção cultural que invista nessas áreas, possa contribuir de forma mais aberta e sincera a criar caminhos alternativos e revolucionários a vida humana.

            Larguei minha formação para arquiteto para me formar somaterapeuta. Em vez de ter uma profissão, como um rg e um cpf, quero dar vazão as inúmeras personalidades possíves em mim, como somaieterapeuta, professor de capoeira angola, fotógrafo, produtor cultural, pedagogo infantil, cientista, filósofo amador e etc. Pois a vida é múltipla e nosso potencial original é múltiplo. Não temos uma originalidade única, temos várias. E estamos em permanente crescimento, interagindo e mudando com o meio. E a medida que vivemos somente uma, como uma especialização, podemos estar enfraquecendo nosso potencial pois áreas revolucionárias isoladas produzem revoluções isoladas. Na capoeira angola, somos a cada momento uma personalidade, as vezes no centro do palco (roda) outras vezes de fora assistindo. No decorrer da roda: lutamos, dançamos, cantamos, tocamos os instrumentos, improvisamos músicas, etc. Hoje, ao ‘utopizar’ a Produção Cultural Somaiê vejo que não nascemos para ser uma coisa ou profissão. Somos múltiplos eus, e a medida que deixamos eles (ou nós?!) fluirem livremente teremos mais força pra construir um novo mundo. Com o zapatismo aprendemos que mesmo na contemporaneidade do ‘fim da história’ podemos nos mover embaixo e com isso desequilibrar que está encima. A Somaiê está acrescentando a essas mudanças iniciadas com Reich de um lado e o anarquismo de outro, uma fusão da capoeira angola. Sugerimos virar de cabeça pra baixo a sociedade, e começamos com nosso próprio corpo: plantando bananeira.

           

 

 

Rui Takeguma, Sampa

 

(escrito em 7 e 8 de novembro de 2004, e completado dia 20 de novembro para ser distribuído aos participantes da Vivência dentro da Jornada Reich)

(texto escrito nas vésperas da 8ª FACA e da XVII Jornada Reich no Sedes, visando uma autoreflexão para a criação do Te&So e da C&E Livres)

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