29 - Organização da Capoeira
dentro do Grupo capoeira-cbc@grupos.com.br
debate começado a partir de mensagem e português/inglês do mestre Cobra Mansa
1 - mensagem de Mestre Cobra Mansa - 28 de junho 05
2 - mensagem de Mestre Cobra Mansa - maio de 2002 (arquivo de Rui Takeguma)
3 - minha mensagem - 30 de junho 05
1 - mensagem de Mestre Cobra Mansa:
From: cobra mansa <mestrecobramansa@yahoo.com.br>
Sent: Tuesday, June 28, 2005 10:35 AM
Subject: Capoeira, Comunidade, Instituição, Sociedade e Indíviduo
Capoeira, Comunidade, Instituição, Sociedade e Indíviduo
Nos capoeiristas, no Brasil e em todo mundo, somos na maioria,trabalhadores da construção, professores, estudantes, esposas, maridos,doutores, advogados, banqueiros, administradores, desempregados, músicos,artistas, etc. Em resumo, fazemos parte ?desta coisa? que chamamos SOCIEDADE. Logo, vivemos
e seguimos muitas ou a maioria das práticas que esta sociedade possui. Somos, inevitavelmente, o elemento básico que constitui a sociedade; ela existe porque estamos nela. Mas ao mesmo tempo, não somos absorvidos ou assimililados a força por esta sociedade e, pessoalmente, acredito que é ai que
nos capoeiristas, como qualquer outro grupo na sociedade, podemos fazemos diferença, pois, cumprimos com o que nos cabe como parte desta sociedade, contudo, tem uma outra parte das nossas vidas que simplesmente não se "enquadra" dentro desta mesma sociedade que seguimos.
Somos, por natureza e/ou por escolha, um tipo diferente de indivíduos: desejamos a liberdade no nível mais profundo de nosso ser. Um Homem disse uma vez: "Se você deseja ser livre, você tem apenas que começar a ser livre." A liberdade é um estado mental e não um estado do corpo. Nós
somos e continuaremos a ser parte desta sociedade, contudo, nao de forma passiva, pois, devemos também continuar a aumentar o que temos de melhor dentro dela. Nenhum sistema ou sociedade pode engolir o que um indíviduo tem de melhor, uma vez que este tenha tomado consciência destas suas virtudes.
Por isso o conceito de institucionalização da Capoeira não cresceu tão profundamente dentro da maioria das comunidades de adeptos desta arte, especificadamente nas comunidades de Capoeira Angola. O estilo de vida da Capoeira é música para os nosso ouvidos, porque criamos o nosso próprio espaço
com esta sociedade da qual fazemos parte, mas que muitas vezes desprezamos.
A Capoeira, como Mestre Pastinha disse, é tudo que a boca come. E como o ar, sabemos que está lá, respiramos e precisamos dele; contudo, não podemos capturá-lo. A Capoeira não pode ser limitada a um grupo de praticantes, por uma organização formal e muito menos por um grupo de Mestres que
clamam o monópolio sobre ela. A Capoeira vai além de todos nós. Nenhuma sociedade, comunidade, ou indivíduo jamais irá controla-la.
Então, se praticamos a capoeira para nos afastarmos daquilo que ha de tradicional e repressivo dentro da sociedade e que desaprovamos tão fortemente, porque quereriamos institucionaliza-la? Nos parece um tanto contraditorio, já que institucionalização significa seguir profundamente todos os
protocolos e leis detalhadas da sociedade para que nos enquadremos nos esquemas administrativos e corporativos com alguma prática e sentido reais: independência fiscal, oportunidades de doações, coesão administrativa e grupal, etc. Grupos diferentes de Capoeira, dentro da história e mais ainda
nesta útimas décadas, tentaram criar uma instituição ou organização paralela somente para a Capoeira, e se tornaram tão restritas e repressivas como a instituição original da qual eles haviam tentado se afastar.
Em todas as partes do mundo nós vemos a corrupção e escandalos que instituições e indivíduos fazem. O sistema controla vários setores da sociedade com um número pequeno de pessoas tendo o monopólio absoluto sobre estes. Se olharmos para o Brasil como exemplo, vemos o carnaval e outras
manifestações criadas pelo povo que foram institucionalizadas.
O povo que originalmente os criou foram os que mais perderam com isso.
Antes de pensarmos em institucionalização da Capoeira, nós temos que perguntar porque querem nos ?organizar?? Porque quereriamos uma instituição para controlar o nosso estilo de vida? Quem vai ganhar com isso? A Capoeira? O capoeirista? Os burocratas? Será que estas instituições são
realmente necessárias? Quem as controlara? Porque elas tem que ser tam repressivas, elitistas e ditatoriais? Podemos confiar nestas instituições e nos seus líderes moralmente, financeiramente, fisicamente e espiritualmente? O que é que nós queremos? Nós queremos a institucionalização da
Capoeira, ou uma comunidade de Capoeira que trabalhe com "o sistema"para obter honestamente o que precisamos sem nos inclinarmos para o que este sistema tem a nos oferecer?
Embora estejamos abertos para crescermos no espírito e conhecimento da Capoeira, queremos evitar a imposição de valores de um grupo de pessoas e burocratas que já tenham criado as suas próprias escalas de valores. Queremos uma comunidade que celebre e encoraje a individualidade e a cooperação
entre seus membros; uma comunidade mundial de capoeira que respeite diferentes valores, crenças, pontos de vista, práticas, etc; em resumo, o que queremos e uma comunidade que respeite as nossas diferentes estórias e histórias, as nossas vidas diferentes e o nosso crescimento em direções
variadas para o seu próprio fortalecimento. Pois, e isto o que nós todos teremos para oferecer através do entedimento e do amor sob a prática e o espírito da Capoeira.
Mestre Cobra Mansa
Ps: Por favor nao altere o sentido desse texto e mande para todos os
capoeiristas e individuo que acreditar na liberdade e em uma sociedade
alternativa e mais justa.
2 - mensagem de Mestre Cobra Mansa - maio de 2002 (arquivo de Rui Takeguma):
Comitê Internacional de Emancipação da Capoeira Angola
Foi criado no dia 20 de maio de 2002 em Freiburg, na Alemanha, durante a comemoração do aniversário de 10 anos da Associação de Capoeira Angola Dobrada, o Comitê Internacional de Emancipação da Capoeira Angola, com a participação de representantes da Alemanha, França, Brasil, USA, Suécia, Suíça, Finlândia, e Itália.
Ficou decidido em assembléia geral do comitê
1 - A capoeira Angola permanecera desvinculada de qualquer processo acadêmico elitista, que visa retirar o direito dos mestres de capoeira Angola exercerem seus rituais culturais
tradicionais.
2 - A capoeira Angola por não se enquadrar dentro da visão estritamente esportista, não poderá ser submetida a nenhum tipo de regulamento que institucionalize.
Enviado por Mestre Cobra Mansa - Maio de 2002
3 - minha mensagem em 30/06/05:
Aos Capoeiras:
Falar em CAPOEIRA é falar de um ambiente tão variado que é difícil chegar a consensos... Já escrevi uma vez que o único consenso no ambiente da capoeira, é utilizarmos desta palavra para nomearmos práticas muito diferentes.
Lendo o texto do mestre Cobra Mansa, relembrei da mensagem recebida a três anos atrás sobre a formação do Comitê Internacional de Emancipação da Capoeira Angola (que para quem não leu ou teve acesso, coloco no final de minha mensagem), mas que depois nunca mais ouvi falar...
Lembrei pois toca no ponto da INSTITUCIONALIZAÇÃO da capoeira. Na mensagem de 2002, m. Cobrinha fala da CAPOEIRA ANGOLA, nessa mensagem desta semana somente da CAPOEIRA.
Acompanho o ambiente da capoeiragem de uma época em que se falava mal dos angoleiros (aqui no sul/sudeste). Em São Paulo, por exemplo, NÃO HAVIA GRUPOS QUE SÓ PRATICAVAM CAPOEIRA ANGOLA. M. Cobrinha ainda era parte do forte GCAP.
Hoje, ano em que completo 10 anos atuando como professor de capoeira angola, a cidade de São Paulo conta com ALGUNS grupos de capoeira angola e de linhagens variadas. E vendo as mudanças que aconteceram, vejo, por exemplo, que há uma valorização da capoeira angola. M. Cobrinha saiu do GCAP e fundou a FICA. Muitos angoleiros que como eu eram alunos, hoje já são contramestres. Se criou quase que franquias dentro da capoeiragem, pessoas mudando de grupos e se filiando a outros, que não formaram seu aprendizado, mas garantem uma legitimidade de ancestralidade frente a cobrança do meio. Sem falar da expansão da capoeira e da capoeira angola pela Europa e o Mundo. Hoje “temos” até uma Federação Internacional de Capoeira. Ponho entre aspas, pois como capoeira, seria uma Federação que abrangeria minha atividade profissional, e principalmente minha opção de vida; MAS não representa absolutamente nada pra mim, e suponho que para a maioria dos capoeiras...
Assim, ACHO FUNDAMENTAL os questionamentos levantados por m. Cobrinha, principalmente por “acreditar na liberdade e em uma sociedade aternativa e mais justa” .
Porém, gosto de pontuar que a palavra LIBERDADE está tão deformada quanto a palavra CAPOEIRA. Pois se todos os capoeira querem a liberdade, o entendimento dessa liberdade é tão variada quanto as formas de se praticar a capoeira.
Assim, quando me referencio ser ANGOLEIRO é pra facilitar o entendimento que o MEU TIPO de CAPOEIRA não aceita, por exemplo, a desportividade competitiva. Faço capoeira por prazer e não por poder....
Agora se existe uma Federação Internacional de Capoeira que quer FUNDAMENTALMENTE viver a copetitividade do desporto, faz parte da LIBERDADE desses capoeiras fazerem isso, MAS faz parte da MINHA LIBERDADE criticar essa opção.
Assim, quero levantar que dentro da palavra CAPOEIRA não só existe uma diversidade muito grande, mas existem inúmeros PONTOS ANTAGÔNICOS e EXCLUDENTES; isto é; que não se aceitam...
Em 2002, criamos a FACA, Federação Anarquista de Capoeira Angola, uma forma de expressar nossa opção de organização dentro da capoeiragem. Uma forma de lembrar o conceito federativo dos anarquistas, que é totalmente diferente do conceito federativo do senso comum (como o da Federação Internacional de Capoeira, CBC ou qualquer Federação Intitucional de outras áreas...).
Mesmo explicitando que com a FACA só fazemos encontros e produções, recebemos de vários capoeiras espalhados pelo mundo, mensagens de apoio, chegamos a receber pedidos de filiação, e temos de explicar que não há como se filiar pois a FACA não é uma instituição.
Assim, quero colaborar com esse debate sobre CAPOEIRA, INDIVÍDUO e SOCIEDADE. Ao pontuar que devemos contextualizar palavras como LIBERDADE e suas consequências.
Logicamente que não podemos misturar conceitos também, pois apesar da capoeira angola não aceitar intitucionalização da competição esportiva, ela é um estilo e os indivíduos que optaram por esse estilo podem se organizar da forma que bem desejarem.
Vou dar um exemplo prático, de todos os grupos de capoeira angola que visito em SP, existe um (N´Zinga) que não permite que se façam fotografias da roda. Isto é, eu não me sinto LIVRE dentro deste grupo (pois sou fotógrafo e gosto de fotografar por onde ando), até por isso visito bem eventualmente (percebo que não sou muito bem vindo, mas isso também não é colocado diretamente). Mas faz parte da LIBERDADE deste grupo criar essa regra da impossibilidade de visitantes fotografar.
Assim, quando criticamos a INSTITUCIONALIZAÇÃO da CAPOEIRA, criticamos algo que é realmente impossível de se acontecer. Pois por um lado, cada grupo de capoeiras tem se institucionalizado de sua forma, seja informalmente como a FACA ou mais formal como a Fundação Internacional de Capoeira Angola do m. Cobrinha. Por outro lado, apesar do nome pomposo, a Federação Internacional de Capoeira NÃO institucionaliza a capoeira.
Isto é, cada grupo de capoeira tem sua instituição pra facilitar sua organização e atuação na sociedade. E por outro lado, a Federação que abarcaria toda a capoeira, na realidade, abarca uma parte pequena da capoeira, e inclusive abarca uma parte que não faz parte da CAPOEIRA MÃE, a capoeira angola, já que essa não aceita a competição desportiva.
Continuo achando que o que chamamos coletivamente de capoeira, não existe. Existe sim práticas de capoeira que cada um produz e essas muitas vezes estão em choque. Assim, para o debate ser mais produtivo, sugiro que contextualizemos as palavras e propostas.
Axé
Professor Rui Takeguma - IÊ Grupo Anarquista de Capoeira Angola de SP
somaie_rui_takeguma@yahoo.com.br
mestrecobramansa@yahoo.com.br, somaie_rui_takeguma@yahoo.com.br,