Faltam dois meses pra você vir ao mundo, assim esta ou é pra minha quase Cecília Cardoso Takeguma, ou é pra Roberto Freire e seu Brancaleone, ou é pra formandos, futuros formandos, clientes ou futuros clientes da Soma-Iê, ou no fundo é pra mim mesmo. Talvez um outro título seja, testamento da minha loucura.
Ontem liguei pra Roberto Freire, tentando marcar um encontro. Ele não quis. Na minha cabeça precisava falar coisas e passar minhas sensações e percepções de uma crônica de uma morte anunciada. A morte da relação Takeguma-Freire ou Gum@-Bigode. Mas ele não quis. Na minha loucura tento entender e respeitar.
Quando falo minha loucura, é que se mistura uma divisão maluca que criei entre Roberto Freire pessoa e Roberto Freire obra, entre Rui Takeguma pessoa e Rui Takeguma obra, entre escrever pra minha filha coisas que não pude falar pra meu amigo, ou escrever pra minha futura filha (quando puder ler) coisas que não pude falar pra meu antigo amigo (que talvez nunca leia).
Escolhi escrever pra você, Ceci, pois lembro d’As Aventura de Tibicuera de Érico Veríssimo. Nesse livro que li há muito tempo ficou marcado a forma que o autor achou pra escrever uma história do Brasil. Um índio que presencia a chegada invasora dos portugueses, chama-se Tibicuera. Ao ter um filho ele dá o nome de Tibicuera e conta toda sua vida pra ele. Assim a vida do pai é passada, além da herança genética, pelo fato que ele conta tudo que viveu ao filho. E esse filho conta pro seu filho, neto do primeiro, mas que também se chama Tibicuera. Como cada pai conta para seu filho, o que viveu e o que ouviu do seu pai, vão se passando os anos e como uma pessoa imortal, é como se cada Tibicuera sobrevivesse na lembrança de seus filhos. No livro chega-se a contar quase quinhentos anos de história do Brasil, através da visão de um índio que viveu e presenciou todos os fatos.
Assim se um dia você quiser saber o que aconteceu na minha separação com Roberto Freire pessoa e seu Brancaleone, porque me afastei e comecei a criar a Soma-Iê, esta carta poderá te dar informações do que sinto hoje, enquanto as coisas são meu presente.
PEQUENO HISTÓRICO
Conheci Roberto Freire pela sua obra. Tinha lido Cléo e Daniel numa fase que eu era tão neurótico, tão fechado para as pessoas, que meu consolo para viver era ler. Do muito que eu lia este livro passou desapercebido. Nessa época eu dava nota para os livros, criei uma sistemática própria, mas que sintetizando agora, graduava-se de 1 a 8. Cleo e Daniel recebeu nota 6, isso foi em setembro de 1989, quase 13 anos atrás.
Na virada do ano, de 89 pra 90 eu tinha 20 anos, estudava arquitetura e urbanismo na UFPR. Quando fui passar as férias de verão no Rio de Janeiro, vivia uma crise amorosa. Ciúmes, confusões com a minha primeira namorada (e 1ª mulher), a Miriam Z.
Meu maior e, talvez único amigo na época, André V. Pessoa me emprestou Ame e dê Vexame que eu li em uns dois dias. Era fevereiro de 1990, dei a nota máxima ao livro. Ler este livro foi uma rápida terapia, entendi meus conflitos de poder versus amor. Sem saber ainda, descobri a Soma e o anarquismo.
Neste mesmo verão, entusiasmado pelo livro-autor, devorei em três-quatro dias o Coiote, que também recebeu nota máxima, e olhe que sempre me achei exigente.
Voltei pro meu cotidiano curitibano, e por cartas André Pessoa descreveu sua experiência num Workshop de Soma. Ainda guardo as cartas daquela época, pois eram cartas-livro tal a quantidade de vida que trocávamos nesse período.
Coincidentemente, neste verão que descobri o autor Roberto Freire, ao ver um show acústico de Caetano Veloso no Forte de Copacabana (primeira vez que os militares abriam o Forte do posto seis para um evento civil), descobri a capoeira. Pois, houveram apresentações de capoeira (que hoje chamo de contemporânea) e da Intrépida Trupe (circo) antes da música. Naquele evento tive vontade de praticar a capoeira.
Passado alguns meses, entro na academia de mestre Burguês. Logo depois vem a carta descrevendo o Workshop e nela, descubro que Freire recomenda a capoeira aos seus clientes.
Chegando ao Inverno de 1990, passando pelas livrarias Curitiba, vejo um cartaz de palestra com Roberto Freire e workshop de Soma. Depois fiquei sabendo que fui o primeiro a me inscrever num workshop que teve umas 64 pessoas participando.
No final de semana deste workshop fui conquistado pela pessoa Roberto Freire. No domingo estávamos jantando juntos, com outras pessoas, num restaurante tradicional.
Passei por uma dúvida de quinze minutos, depois que Freire comentou que poderia voltar mês a mês na cidade para fazer a terapia. Em menos de um ano, antes do término da terapia, largava a universidade e entrava na formação com Freire. Antes disso tinha já iniciado a formação com Bruno S. no final de 1990.
Na virada do ano, Freire passa alguns dias na Lapinha, spa perto de Curitiba, e passa pela crise da separação com outros terapeutas. Ele ligou para cada somaterapeuta da época, para decidir quem ficava com ele na pesquisa da Soma-Capoeira. Houve o boicote coletivo do experimental e nenhum terapeuta formado ficou ao lado de Freire, mesmo os que praticavam capoeira, ficaram juntos da “Soma sem Capoeira”.
Lembro que num almoço, Freire comentou que chegou a pensar ele mudar de nome da terapia para chamar de “Soma de Angola” e eu apoiei a não mudança. Achava que Freire devia continuar com a Soma, sua criação e os outros que chamassem de outro nome. Era num restaurante vegetariano que levei o Bigode, lembro, pois depois ele me disse que não gostava da comida, mas foi pelo meu convite.
Outro fato marcante é que depois de Freire se separar de todos os Somaterapeutas formados, na crise da Lapinha, somente um formando entre vários ficou ao lado de Freire, João da Mata de Recife. Neste ano da minha terapia, Freire coordenava a Soma em Florianópolis, Curitiba, Salvador, Recife e Fortaleza (é isso possuía cinco grupos ao mesmo tempo, e ainda morava em Ilha Bela). Tal era minha dificuldade de comunicação (e também a dificuldade de percepção de Freire nesta área, pelo envolvimento pessoal e profissional) que na minha cabeça, na separação eu ficaria ao lado de Freire, mas ele achou que eu tinha dúvidas entre ele e o Bruno.
BRANCALEONE
Naquela época os grupos de Soma só tinham uma vivência de campo, junto a natureza (através de nossas pesquisas, hoje são três). Pouco antes da parte final da terapia, as Cadeiras Quentes, conheci Visconde de Mauá. Pela amizade com Freire, e por já estar em formação (abandonei o Bruno depois que Freire saiu da Lapinha em dezembro de 1990), cheguei uma semana antes no sítio de Freire e inclusive a seu pedido (para poder auxiliar como um tipo de assistente nos exercícios de campo) fiz a subida do rio antes do meu grupo chegar. A subida do rio é o exercício clássico de Mauá.
Nesta vivência em Mauá, conheci João da Mata em sua primeira descida ao sul do país. Inclusive fizemos um co o outro, o exercício do barro.
Era janeiro de 1991, num chalé do Antônio, Freire falou numa reunião comigo e com João que nós éramos seu exército brancaleone, que conosco ele iria resgatar a Soma com a capoeira, mesmo se separando de mais de doze terapeutas formados e espalhados pelo Brasil. Isso inspirou a formação do Coletivo de formação em Soma, que surgiu em Curitiba depois do término do meu grupo.Em Abril de 1991, eu, Denise W., Marga P. e Ester B. fundamos o L’Armatta Anarquista Brancaleone. Começamos a produzir com outros grupos anarquistas de Curitiba e inclusive produzimos um jornalzinho.
Foi um momento entusiasmado. Larguei a Arquitetura, entrava na formação de Soma, agora com Freire e João da Mata. Tudo depois de passar pela Soma e minha cadeira quente de alto impacto.
Formamos o 2º grupo de Soma de Curitiba, entrei no grupo de Florianópolis e Rio de Janeiro. Chegando em julho de 1991 na Ilha Bela, oficializamos o Coletivo Anarquista Brancaleone, com sete pessoas e inúmeros projetos.
Projetamos o coletivo para explicitar o anarquismo e a pesquisa da capoeira na Soma. Afirmamos como sede provisória a comunidade do João em Olinda (que já existia desde 1990). Entre os projetos, pensamos numa Biblioteca, que nunca funcionou como tal e que penso em inaugurar em outubro de 2002 (no espaço cultural Tesão, chamando de Biblioteca Roberto Freire), 11 anos depois. O jornal demorou dois anos, mas saiu em 1993, e acabou em 1998. E hoje dei continuidade a ele e pretendo fazer o nº1 ainda este ano, depois do sucesso do nº zero.
Enfim as conquistas do Brancaleone, vou contar num livro-arquivo que pretendo publicar ainda este ano. Leia o livro e depois continue esta carta.
Do coletivo inicial de sete membros, só continuam até hoje, Eu, Freire, da Mata e Jorge Goia. Quase dez anos de formação e só apareceu entre formandos e formado a Vera Schroeder, que pegou seu primeiro grupo solo em 1999.
NOVO MILÊNIO
Interessante resgatar lembranças, pois aí separo o que fica do que pretendia ser. Hoje vejo que o Brancaleone foi consolidar a entrada da Capoeira na técnica da Soma. Freire foi seu principal entusiasta e nós (Eu, João e Goia) seus catalizadores práticos.
Mas não conseguimos traduzir isso para o plano científico, somente o político e prático. E como a prática sempre antecede as teorias, no momento que tentávamos traduzir a prática pra teoria, coincidiu com saturações de dinâmica. Isto é, nossa dificuldade de sinceridade entre somaterapeutas.
Relendo os manifestos do brancaleone, percebo que na capoeira não fizemos algo coletivo como na nossa atuação anarquista. Seja no movimento anarquista, seja para eventos e atividades coletivas. Talvez a não prática da capoeira pelo Freire incentivou este aspecto. Talvez o próprio tempo de aprendizado da capoeira contribuiu para isso, pois a capoeira não tem pressa. Assim considero que as pesquisas de 1990 a 1999 foram suficientes pra provar pra nós mesmos, pros clientes da soma deste período e para os “porcos”, digo os antigos somaterapeutas que se afastaram de Freire. Mas são insuficientes pra mostrar pra ciência e pra história as possibilidades terapêuticas da capoeira.
Considero o livro do João (lançado em setembro de 2001, mas que desde um ano antes, antes da minha saída do coletivo, já estava pronto) como um Soma 3 da pesquisa. Isto é, assim como a Soma está nos livro 1 e 2 de Freire e o Soma 3 é só uma síntese introdutória (mais superficial). O A Liberdade do Corpo, é uma introdução a pesquisa Soma-Capoeira, e também superficial. Veja o comentário de Freire sobre o livro, na contra-capa: “Leve, simples e apaixonado...”
Assim entre as cobranças de Freire (e de nossas consciências) em teorizar a pesquisa, e nosso cotidiano de convivência cada vez menos solidário. Começamos a teorizar mais sobre o anarquismo que viver entre nós.
Minha saída do Brancaleone aconteceu por um simples motivo: falta de confiança. Quando percebi que não havia confiança, entre somaterapeutas que buscavam a autogestão somática, trabalhavam com isso, incentivando isso nos outros, mas entre nós deixávamos a petaca cair...Entrei em crise, e depois de algumas besteiras pessoais, tomei coragem e saí do coletivo. Percebi que era comigo que a coisa era mais explícita, tanto que na minha saída pensava que meu problema era mais com João e Goia, como comentei na última dinâmica que participei no Rio de Janeiro. Acho que não tivemos jogo de cintura e tesão para exercer nossa sinceridade e quando propûs minha saída, não houve conflito, foi um consenso fácil.
Se fosse só bandeiras terapêuticas de desconfiança entre nós, era só trabalhar e continuar juntos. Mas faltou tesão. Tesão de ser sincero e de denunciarmo-nos. Talvez este não-tesão já era um princípio de competição. Talvez já mostrasse nossos anarquismos diferentes.
Dezembro de 2001, saio do Brancaleone. Nesta data, Freire também se afasta do Brancaleone, por motivos parecidos onde critica nosso solidarismo e por conseqüência nosso anarquismo.
Imaginei, e o que foi colocado nas reuniões que tivemos pra encaminhar a separação que continuava a ser Somaterapeuta e trabalhar com a Soma, só que afastado. Na minha cabeça mas não das pessoas que ficaram no Brancaleone. Pois ao sair procurei manter uma postura de sinceridade para com o Brancaleone e escrevi um texto explicando minha saída e de Freire do coletivo.
Na minha prática solitária, escrevo o Projeto ravachol, e João e Goia me escreve pedindo pra não mais citar o Brancaleone. Como não vou citar nove anos de minha produção em coletivo?
Aí começaram os jogos. Sobre o texto da saída minha e do Freire do brancaleone, mostrei pro Freire, ele só corrigiu e pediu pra colocar que sua saída se deu por motivo de saúde. Mandei pro Brancaleone e divulguei na Internet. Continuo a tocar minha vida e vem a primeira bomba. Por e-mail’s começam a colocar que estou deturpando as coisas dizendo que Freire não mais trabalha com eles. Mando um e-mail indignado tentando esclarecer as coisas. Não me respondem, preferem manter a fofoca e se colocarem como vítimas.
Cecília, quando quiser ver, e tiver paciência, tenho todas as mensagens guardadas para você avaliar por si mesma as subjetividades que aqui coloco inevitavelmente como acredito.
Freire sugere que esclareçamos as coisas e quando eles passam por São Paulo, almoçamos juntos no Dega’s e falamos sobre tudo isso. Pena eu não ter gravado essa conversa, pois não tenho como te mostrar o que definimos. Foi nosso último encontro pessoal, em maio de 2001.
Não esclarecemos essa confusão de quem disse o que, pois apesar de eu querer saber onde eu disse que Freire não estava mais trabalhando com eles, não me deram a resposta. Em termos práticos me comunicaram que iam continuar com o curso de pedagogia libertária (em dezembro deixamos este ponto para definir mais adiante) e falei que eu também só que daria outro nome (chamo de oficinas de criatividade libertária). Comuniquei que iria retornar com o jornal tesão. Definimos umas pendências financeiras com Roberto Freire e Denise W. Por último e muito importante (o que mais faltou gravar...) coloquei meu incômodo deles manterem a informação de que Freire continuava no Coletivo Brancaleone.
Logo depois da separação, onde escrevi que Eu e Freire tínhamos saído do coletivo, eles atualizam a home-page da internet, tirando eu da foto de nós cinco (ironicamente foto que eu batí) e sem tirar o Freire. No texto tiram meu nome e mantém Freire como um membro do coletivo. E não citam que eu continuo como somaterapeuta.
Procurei desde que vi a atualização, fazer como acreditava na minha home-page. Enquanto eu citava a realidade como a via, isto é, Freire fora do Brancaleone, Eu fora do Brancaleone, e Freire supervisionando os dois trabalhos. Eles optaram em simplesmente me omitir, como se tivesse saído do coletivo e parado de trabalhar com a Soma e Freire dentro do coletivo.
Pequenos gestos que procurei entender como forma diferente de trabalhar e mantive minha posição mesmo que esquizofrênica para quem conhecesse a Soma pela internet a partir do início de 2001.
Assim nesta última reunião, onde coloquei meu incômodo pelo fato deles colocarem que Freire estava no brancaleone e eu divulgar que ele não estava. ELES COLOCARAM QUE IAM TIRAR ESSA INFORMAÇÃO DA INTERNET. Isto em maio de 2001.
Um mês depois, em e-mail de Goia sobre assuntos financeiros ele pede desculpa por ainda não terem mudado a informação da internet, justificando não mexerem muito nesta área. Passa mais um mês e eles realmente tiram do ar que Freire está no Brancaleone.
Aí vem a cartada final, depois deles tirarem Roberto Freire do Brancaleone (na internet, pois no real Freire nunca voltou até esse ano) passa mais um tempo e eles compram o domínio www.somaterapia.com.br e confirmando que tudo era jogo e mentira pra comigo, neste novo domínio a informação é que Freire está dentro do brancaleone...
Falar o que com pessoas que mentem...
Desisti de cobrar qualquer coisas deles, ainda fui em setembro de 2001 no lançamento do livro do João da Mata no ICAL só pra ver como rolaria. Roberto Freire participa da mesa e João além de me colocar na capa do livro dele, faz uma dedicatória dizendo: “Essa luta também é sua.” (em relação a pesquisa soma-capoeira) O que seria inegável. Mas confirma que na minha frente é uma atitude, nas minhas costas é outra.
ROBERTO FREIRE
Nunca mais vi João, tem 11 meses. Procurei não levar esses problemas para o Freire, apesar de mantê-lo informado do que fazia, e ás vezes comentar algum incômodo. Mas nunca aprofundamos nada, ele nunca se interessou, muito pelo contrário, falava que era problema nosso.
Do ponto de vista financeiro, fui contraindo dívidas pra pagar minhas dívidas. No final de 2001 estorei e não consegui manter o pagamento mensal a Freire (pagava mensalmente nessa época mais de 700 reais por mês a ele, como referência, a terapia de um participante da soma era 110 reais mensais). Primeiro cortou as relações comigo, consegui retomar a relação, mas Freire vivia uma crise de saúde e estava muito sensível nesta questão. Quando ele comentou com seu filho Paulo Freire, que havia problemas éticos e morais comigo, o que fez com que Paulo Freire cortasse a relação comigo. Detonou minha crise acumulada da dificuldade financeira, não só com Freire, mas com outras pessoas como a Denise que morava comigo e outras pessoas (minha tia, sem falar de bancos, cartões de crédito etc). Mas acredito profundamente no que faço e no que quero continuar a fazer, vivendo do que me dá prazer. Assim procurei esclarecer as coisas com Freire, mandando uma carta onde fiz um levantamento histórico do que aconteceu, além do que já tinha voltado a pagar minha dívida pra com ele. Em termos práticos só falhei um mês de pagamento ao Freire. (que na minha cabeça, hoje considero justo, frente ao fato que Freire tinha dado um aparelho de som estragado para eu e Denise, depois que gastamos uma grana para conserta-lo e ficamos usando alguns meses, ele pegou de volta e deu ao Buí pra capoeira)
Depois de dezembro, baixei meu pagamento a Freire de 700 e poucos a 400 e poucos por mês. O que fiz até maio de 2002. De junho a agosto de 2002 tenho depositado entre 150 e 250 por mês a Freire. Sem falhar um mês sequer, inclusive em junho Freire adotou a postura de não mais contar com meus depósitos e me disse para depositar o que eu pudesse. Este é um dos pontos de jogo do Roberto Freire, pois me diz pra depositar o que posso e ontem no telefone um dos motivos para cortar as relações comigo é a questão financeira. Independente do corte de relação, continuarei a depositar o que posso até fechar minha dívida.
Assim, esse ano (após a crise Paulo Freire) resolvi adotar o nome Soma-Iê, onde lancei um manifesto explicando os motivos. No contato pessoal que tive com Freire sobre o assunto comecei a perceber que o sistema de jogos do brancaleone, não estavam só no Brancaleone. Roberto Freire que sempre manteve uma postura ética comigo começou a mostrar que apoiava o brancaleone independente das falhas do coletivo. Isso veio em micro-dosagens.
No papo com Freire, ele me disse que “tanto faz você chamar de Soma, Soma-Iê, ou outro nome”. Mais tarde no mesmo papo, quando eu coloco que não pretendo mais usar o sítio de Visconde de Mauá para as terapias de campo da Soma-Iê, pois não quero ter nenhum contato mais com o brancaleone, ele me disse que já tinha falado com seu Zé Ernesto que eu “havia saído da Soma”.
Assim percebo que para Freire não há uma separação entre a técnica que ele criou e o coletivo que ele supervisiona. Soma é a terapia (como aprendi e está nos livros), ou é a pessoa dele ou o coletivo que supervisiona. Penso ser Somaterapeuta, mas para Freire, por não estar no Brancaleone eu não estou mais na Soma, ou por Freire não me supervisionar, pois nomeio de Soma-Iê (e ele disse que não importa o nome), e depois dá a bandeira que já me tirou da Soma.
Outro ponto é o apoio da importância do título acadêmico. Coisa que sempre condenamos, a titularidade acadêmica, em alguns anos deixou de ser uma possibilidade estratégica para se tornar uma coisa importante. Eu continuo achando medíocre, e apoio as teses de Gregory Bateson há mais de vinte anos chamando este ensino de obsoleto. Pra mim e pra Soma-Iê a universidade/faculdade é obsoleta. Para Freire é um caminho importante, João faz a medíocre psicologia e Goia busca reforço no passado acadêmico para reforçar a Soma.
Não são essas coisas em si que mostram a mediocridade atual da Soma, é um conjunto de fatores.
Depois que publiquei o Manifesto Soma-Iê, tive de fazer atualizações em forma de observações. Na primeira, em março de 2002, quando este ano (mais de um ano após eu sair do brancaleone eles reformam a home page tirando a logomarca que criei e fotos que bati - usavam sem crédito) resolvem tirar Freire novamente do coletivo (engraçado que na última atualização pelo fato de Freire estar atendendo clientes individualmente, eles dizem que Freire voltou a atuar como somaterapeuta, o que o próprio Freire chamou de terapia de apoio). Resolvi ainda adotar uma postura de se somos anarquistas somos irmãos.
Em maio de 2002, na primeira atualização deste novo site. Eles se colocam como os únicos a seguir a originalidade da Soma. Tendo dez anos de produção de coletivo. Retórica somática: quem tem dez anos ali no coletivo brancaleone são João e Goia, Vera e todos os outros entraram bem depois. E a Soma é a única original, então porque adotei um novo nome e inicio um vôo solo, não tenho a originalidade da Soma?
Não deu mais, quero paz como disse Martin Luther King, mas ficar em paz tomando porrada é burrice como disse Malcon X. Não sou Gandhi, nem Jesus, para dar a outra face. Assim ficar agüentando mentiras, competições pela internet, não dá. Então na observação três do manifesto, pela primeira vez, critico o Brancaleone. Considero-os por silogismo, buscando uma oficialidade medíocre.
Após ‘telefonemas’ indiretos que Freire recebeu sobre o que está na home page, cita que sou a Soma “do futuro”. Não sei de onde tirou isso, mas não quer esclarecer.
Ontem Freire assumiu que está com o Brancaleone. Nem tanto pelo esclarecimento comigo. Mas exatamente por não querer esclarecimento, preferir as fofocas e informações indiretas que o cara a cara e a limpeza, coisa que a Soma sempre se propôs. Mas isso é para clientes não para os somaterapeutas brancaleônicos.
Assim se há doze anos atrás Freire passou uma crise e resgatou a Somaterapia, hoje ele faz o que criticou nos “ladrões da Soma”: manter uma forma medíocre de conduzir a técnica em prol da afetividade de companheiros e não pela ciência.
Quando você tiver idade pra ler esse meu desabafo, Cecília, o tempo terá mostrado com quem está a “verdade”. Isso pode ser relativo, pois se em doze anos, os “porcos” sumirão e não existe mais quase a Soma sem Capoeira, e a Soma com Capoeira cresceu e gerou dissidências (que só vai ser consolidada como dissidência a partir do ano que vem quando publicar minhas teses da Soma-Iê). Na psicanálise, Freud desistiu de ser cientista pra institucionalizar sua técnica marginal.
Espero que Freire faça uma revisão ( e em breve) dos seu pupilos, e ou mudem de atitudes (senão comigo, com os seus futuros formandos) ou se afaste deste moribundo brancaleone. Se não o fizer tenho a pretensão de como Reich aprendeu com Freud e se afastou pra criar o que acreditava. Hoje, em início de agosto de 2002, eu me afasto de Roberto Freire, o criador da Soma, por querer manter a radicalidade que aprendi com o próprio Freire em relação a ciência e ética.
Assim, Cecília, seus olhos do futuro voltados pra essa carta no seu passado, quem sabe te de informações que espero o tempo não apagar.
Por acreditar no Freire que criou a Soma e lutou pela capoeira, vou entregar uma cópia dessa carta para o Freire que está no presente reproduzindo erros do passado. Espero que ele possa ler essa carta e contribuir pra alguma coisa. Seja para lutar pela vida, da sua obra e do seu corpo.
Amo muito o Freire e nunca tive a coragem de questiona-lo sobre sua própria doença atual, indiretamente o faço nessa carta. Ou a teoria reichana que aprendemos mudou, ou Câncer é desistência. Freud desistiu da radicalidade terapêutica pra se apegar as garantias institucionais e de respaldo social, Reich denunciou isso no Câncer que Freud produziu. O Câncer de Freire deve ser fruto da sua desistência pela vida (amor e produção/criação). Só ele quem pode avaliar, faço um chute da minha sinceridade.
Isso vem para mim como suas atitudes comigo, desistir da nossa relação sem lutar por ela, ou no mínimo, querer esclarecer os fatos.
Em 1990 o Freire ligou para os que discordavam dele, e em 2002 ele não quer conversar com quem está discordando, mesmo eu ligando para ele. Fiquei um bom tempo sem falar com o Freire e ele nunca me procurou neste período.
Posso estar maluco-paranóico me comparando a Reich e pretensamente querer ser o continuador das pesquisas somáticas. Ou Freire chegou ao ponto que sempre temeu, não ter mais lucidez para avaliar diferenças entre discurso e ação.
Mas continuo apostando no meu vôo solo...
Soma-Iê está nascendo, Cecília você está nascendo, meus livros e projetos estão nascendo.
Espero, Ceci, que você conheça o Roberto Freire que eu conheci. Pois o tempo, fará o Brancaleone mostrar que suas atitudes medíocres não são só comigo. Seja coisas muito antigas que mostram uma incoerência entre discurso e ação (sabia que João da Mata era funcionário fantasma na Câmara de Vereadores de Recife, o que víamos como estratégia para ter recursos financeiros pessoais era bancado pela população de Recife, e hoje vejo como uma atitude que eu não aceitaria num formando meu) seja como eles estão mostrando seu anarquismo no meio atual (por exemplo o ICAL, que durou um ano perto do metrô vila madalena, vivendo um anarquismo que prioriza fazer passeata na av. paulista, e há jovens que se acham anarquistas por isso – ou como diria Maurice Joyeux é fácil mostrar a bunda nas janelas – onde a anarquia está mais no verbo que nas relações cotidianas). Assim eu sou um lado interno, das relações políticas das pessoas que produzem a Somaterapia desenvolvida por Freire. Mas estamos num organismo vivo chamado Terra, que nossas ações possuem relações dentro e fora. Se dentro da Soma e do anarquismo eles são assim, qualquer hora isso vai pra fora (pois começou dentro dos seus corpos essa mediocrização ética de relacionamentos).
Por amar a Roberto Freire obra mais que qualquer atividade política profissional, condeno a Soma praticada pelo Brancaleone. Por amar a Roberto Freire pessoa mais que qualquer outra pessoa que já conheci, deixo morrer nossa relação.
Um brinde de absinto a Ceci, a Cleiri e ao antigo Bigode.
Rui Takeguma,
escrito na manhã chuvosa de 3/08/2002 –
PUBLICADO NA INTERNET em 19 de SETEMBRO de 2004
(Cecília com quase 2 anos)
enviado a Tuco e Paulo Freire por e-mail em 18/08/2002 e entregue em mãos para Roberto Freire (AGOSTO de 2002 - meu último contato ao vivo com bigode)
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